Precisamos falar sobre depressão pós-parto

Luciana* retrata um típico caso de depressão pós-parto. Aos 24 anos,  engravidou pela primeira vez. Uma gestação desejada e tranquila. O parto também correu bem. No entanto, no dia seguinte ela se sentiu estranha. Natural estar à flor da pele nesse momento, pensou. Mas, semana a semana, o mal-estar continuava. Ela teve dificuldades para amamentar e foi complicado lidar com divergências familiares sobre a questão.

Até se acertar com o aleitamento, dois meses se passaram — e ela se enxergava cada vez mais só e sobrecarregada. Não conseguia dormir, mesmo exausta. A irritação era grande e o choro, constante. Nem a evolução da criança, que no começo a deixava feliz, a alegrava mais. Em seu íntimo, questionou-se: “Por que fui ter um filho?”.

A certa altura, intuiu que a angústia podia estar além da conta. Comentou com o marido na época: “Acho que estou com depressão”. Ele descartou a hipótese. Achava que, se o problema fosse esse, a esposa não sairia da cama.

Ao desabafar com a sogra, Luciana ouviu que, caso estivesse mesmo sentindo “isso”, teria que se afastar da criança. “Ela me apavorou. Passei meses fingindo que aquilo não era comigo. E não falei com mais ninguém a respeito.”

Quando a pequena completou 1 ano, Luciana iniciou a psicoterapia. E ouviu da profissional a confirmação de sua suspeita: estava vivendo uma depressão pós-parto.

Situações como essa são bem mais comuns do que se imagina. No Brasil, o transtorno atinge uma em cada cinco mulheres. O quadro pode se iniciar logo no primeiro mês de vida da criança ou até um ano depois. Cerca de 50% dos casos, na verdade, começam ainda na gestação, só que não são detectados.

O puerpério é um período naturalmente delicado, em que a mulher encara sua fragilidade física, psíquica e social ao mesmo tempo. O corpo está se recuperando do parto e os hormônios, mantidos em alta durante a gravidez, despencam, prejudicando o humor. Adaptações precisam ser feitas nas relações consigo mesma, com o parceiro e com o filho.

Além disso, é necessário um rearranjo de condições materiais e objetivas que garantam os cuidados da criança. “São pelo menos três situações de fragilidade que trazem sobrecarga e tornam o risco de adoecimento psíquico maior do que em qualquer outra época não patológica da vida”, explica a psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar, em São Paulo.

Para a maioria das mulheres, a soma desses fatores leva a um quadro chamado baby blues, que, embora inclua aspectos depressivos, tende a passar sozinho, como uma fase de adaptação. Mas parte delas evolui para a depressão em si, com sintomas mais numerosos, intensos e duradouros.

Episódios anteriores da doença (especialmente quando não devidamente tratados), contratempos surgidos na gestação, dificuldades conjugais, entre outras questões, podem contribuir para desencadear o distúrbio.

Os indícios centrais do problema no pós-parto são os mesmos de qualquer depressão: perda de motivação e prazer, além de uma sensação permanente de vazio e melancolia. Só que a falta de vitalidade torna a tarefa de cuidar do bebê mais difícil do que já é, causando sofrimento extra.

Pode haver sensação de incapacidade e até desinteresse pela criança. Em alguns casos, por um tempo, o parceiro, os familiares ou os outros cuidadores terão o importante papel de garantir que o bebê receba atenção e afeto.

Quando há o tratamento, são grandes as chances de a pessoa se recuperar e sair fortalecida. “A depressão nos dá oportunidade de olhar para um sofrimento que não estava sendo visto. É como uma febre, que sinaliza que algo não vai bem. Uma vez que você trata, não precisa repetir”, observa Vera.

A diferença entre depressão pós-parto e baby blues

Esse quadro atinge 70% das mulheres no pós-parto e é caracterizado por sintomas típicos da depressão, mas em menor grau e duração. Falta de energia, choro fácil e irritabilidade costumam surgir no segundo ou terceiro dia após a chegada do bebê, intensificam-se e, em seguida, vão se diluindo. Ao todo, duram, em média, duas semanas.

Ajuda familiar, orientação profissional e suporte de grupos de mães podem contribuir para a adaptação às mudanças drásticas dessa fase. Se as coisas não começam a melhorar após esse período, é o caso de avaliar a evolução para uma depressão propriamente dita.

 

Fonte: Saúde Abril

Parto prematuro: saiba como ele pode ser evitado com progesterona

Um artigo acadêmico, publicado pelo American Journal of Obstetrics & Gynecology, em novembro de 2017, demonstrou que a utilização de progesterona vaginal tem efeitos para reduzir o risco de parto prematuro em mulheres com o colo de útero curto. O artigo tem entre seus autores o obstetra brasileiro Eduardo Fonseca, da Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, Paraíba.

A prematuridade é uma das principais complicações da gravidez e 15 milhões de bebês nascem antes do tempo, em todo o mundo, anualmente. A progesterona é um hormônio natural produzido pelos ovários, no início da gravidez, e depois pela placenta. O declínio da progesterona é um dos gatilhos do parto e pode implicar em partos prematuros espontâneos, se essa queda ocorrer antes do previsto.

Algumas pesquisas já haviam sido publicadas em 2016. Médicos em todo o mundo investigaram se a administração de progesterona vaginal reduziria a taxa de prematuros. Agora, os médicos e pesquisadores resumiram os resultados de todos os estudos e descobriram que, quando toda a informação disponível é considerada, os efeitos são positivos.

A progesterona vaginal reduz a taxa de parto prematuro a partir da 28a semana, além de reduzir a frequência de complicações neonatais e o número de bebês com peso inferior a 1.500 gramas.

O médico reforça, porém, que a administração do hormônio deve ser realizada somente após a indicação de um obstetra, que também irá determinar a dosagem correta por meio de exames. A ocorrência de colo de útero curto deve ser identificada no exame ultrassonográfico, do segundo trimestre de gestação.

Além de auxiliar na vida e bem estar das mãos e dos bebês, a administração de progesterona para gestantes com colo uterino curto também tem impactos positivos de custo-eficácia no sistema de saúde. Os pesquisadores determinaram uma economia nos gastos públicos de, aproximadamente, U$500 milhões, por ano, somente nos Estado Unidos.

Além do médico brasileiro Eduardo Fonseca, que é Presidente da Comissão de Perinatologia da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, o artigo contou com mais sete pesquisadores, entre eles o autor principal Roberto Romero, Chefe do Departamento de Pesquisa de Perinatologia e diretor da Divisão de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, NICHD / NIH / DHHS, e o autor sênior Kypros Nicolaides, Professor de Obstetrícia e Ginecologia da Kings College, em Londres, e Diretor da Fetal Medicine Foundation (www.fetalmedicine.com).

 

Efeito do estresse materno sobre o bebê ainda é incerto.

Que o estresse faz mal para a saúde já é algo de conhecimento geral. O que pouco se sabe é se os efeitos negativos poderiam ter início antes mesmo de a pessoa nascer. Estudos mostram que o estresse materno durante a gestação pode ter impacto direto no desenvolvimento do bebê, mas a afirmação ainda não é um consenso no mundo médico.

Uma pesquisa da Escola de Farmácia da Universidade Hebraica de Jerusalém (Israel) realizou experimentos com ratas de laboratório. Os filhotes daquelas que haviam sido submetidas a situações de estresse tinham a capacidade de aprendizado, atenção e memória prejudicada. Tinham, também, mais sintomas de ansiedade e depressão.

Efeito semelhante destacou um levantamento do Imperial College, de Londres (Inglaterra). Reunindo dados de estudos independentes sobre o assunto, a pesquisa apontou que esses mesmos problemas podem acontecer nos seres humanos.

Ambos os estudos apontam o aumento do nível de cortisol como a principal hipótese da causa do problema. Esse hormônio, responsável pela resposta ao estresse, estaria presente tanto no sangue da mãe, quanto no líquido amniótico, que envolve o bebê. Embora não se saiba exatamente como, a maior concentração desse hormônio teria impacto no desenvolvimento neurológico da criança.

Outro estudo, publicado na Ultrasound Obstetric Gynecol, indicou a relação entre a diminuição do fluxo da placenta e os altos níveis desse hormônio. “O estudo, porém, não conseguiu relacionar o estresse psicológico e os níveis de cortisol, uma vez que outros fatores da vida da gestante, como obesidade e hipertensão, não eram separados”, explica Renata Di Sessa, ginecologista e obstetra do Hospital Santa Catarina, de São Paulo.

O aumento do cortisol eleva também a chance de a pessoa desenvolver hipertensão grave e diabetes. Por conta disso, e dos maiores riscos de distúrbios endocrinológicos e alterações de glicemia, a mulher que sofre com muito estresse durante a gestação apresenta ainda maior risco de aborto.

Além disso, o estresse pode aumentar o risco das infecções urinarias de repetição e do trabalho de parto prematuro. “E, o que é muito importante: dificuldade na amamentação, o que pode levar a mãe até a desistir desse cuidado extremamente necessário para a nutrição e a defesa imunológica do recém-nascido”, menciona a médica.

Mas, de acordo com Renata, de uma forma geral os estudos que ligam estresse materno a problemas do bebê ainda não podem ser considerados conclusivos. “Penso que ainda há muito que ser estudado. São necessários mais estudos que comprovem tudo isso”, diz Renata.

Alterações genéticas

Uma pesquisa da Universidade de Konstanz, na Alemanha, publicada na revista científica Translational Psychiatry, foi feita com 25 mulheres que sofreram ameaças de agressão de seus parceiros durante a gestação e seus filhos. Segundo o estudo, os filhos dessas mães seriam mais sensíveis ao estresse, reagindo mais impulsivamente. Eles também teriam mais dificuldade para lidar com suas emoções.

O estudo aponta ainda que alguns desses filhos teriam uma alteração no gene receptor de glucocorticoide, responsável por regular a resposta hormonal do organismo ao estresse.

Tô grávida de gêmeos!

A gravidez é uma caixinha de surpresas! E cada uma tem suas particularidades e seus cuidados.

Hoje vamos falar sobre a gestação de gêmeos e o que a diferencia das demais.

Começamos pela fecundação, que pode ser monozigótica ou dizigótica.

Na monozigótica, o espermatozóide fecunda um óvulo, formando um embrião que poderá se dividir em dois. Ao se dividir, cada embrião formará um feto, um idêntico ao outro.

Na fecundação dizigótica, dois espermatozóides fecundam dois óvulos formando dois embriões. Cada embrião formará um feto, um diferente do outro.

Esta é a origem dos nomes univitelino e bivitelino. Gêmeos univitelinos se originam do mesmo óvulo e os bivitelinos de óvulos diferentes.

Cuidados em uma gestação gemelar

O primeiro passo é definir o tipo de gestação a partir de um ultrassom precoce. Se é mono ou dizigótica, se tem uma ou duas placentas, etc. Daí em diante serão determinados os cuidados que deverão ser tomados.

A gravidez de gêmeos requer o dobro de atenção, principalmente na alimentação.

É muito importante contar com o apoio de nutricionistas para manter uma alimentação saudável e sem excessos, reduzindo assim, as chances de ganhar muito peso e de desenvolver hipertensão ou diabetes gestacional.

É mito que é preciso comer por três quando se está grávida de dois.

Menos é mais

Toda grávida de gêmeos apresenta uma maior chance de prematuridade por conta do peso da gravidez. Para evitar que isto ocorra, é necessário medir o tamanho do colo do útero, responsável por sustentar os bebês.

A medida deve ser tirada entre a 20/24 semana de gestação por meio de ultrassom transvaginal. Caso o colo seja curtinho, será necessário tomar cuidados a mais, como repouso e uso de progesterona via vaginal para prorrogar a gravidez.

Ou seja, quando menos esforço, mais seguros os bebês estarão.

A frequência de consultas médicas deve ser maior a partir da 30 semana de gestação, para poder detectar precocemente a possibilidade de hipertensão e diabetes gestacional, que costuma ser mais frequente em grávidas de gêmeos.

Chegou a hora!

Mais de 70% acontecem antes da 37 semana e acabam sendo por cesariana. Para que o parto vaginal aconteça de forma segura, o primeiro bebê deve estar de cabeça pra baixo (posição cefálica) e deve ser mais pesado que o segundo bebê.

Amor de Mãe

Há quem argumente que, desde Eurípedes (poeta grego do século V a.C.), as mulheres têm sido protagonistas absolutas da dramaturgia. No Brasil, com a ampla tradição das telenovelas, essa é uma realidade. “Mas a dramaturgia ficou muito refém das histórias de amor. E o amor, numa piração muito louca, começou a justificar tudo. E todas as outras histórias, os amores filiais, a relação de aprendiz e mestre, tantas outras relações que mobilizam a gente, que te levam para a frente e te definem como ser humano cederam lugar a essa obsessão com o amor romântico”. Quem faz essa reflexão é Manuela Dias, 42 anos, roteirista da TV Globo há 20, responsável por levar o afeto maternal de volta ao horário nobre com Amor de Mãe, novela que estreará nesta segunda-feira, 25 de novembro.

Protagonizada por Regina Casé, Taís Araújo e Adriana Esteves, a trama tratará das diferentes relações familiares de suas personagens e da arte da maternidade possível. Estreia de Manuela como autora de novela, o novo projeto recebe sua dedicação há três anos, mesma idade de sua filha. “Engravidei quando estava fazendo a série, aí Helena nasceu e foi aquela avalanche louca e esse superpoder que é ser mãe. É um negócio doido, porque mãe dá o que não tem. É uma espécie de mágica. E a gente vive num país em que as pessoas não têm pai, né?”. A autora lembra que 6 dos 11 titulares do Brasil na Copa de futebol masculino cresceram distantes do pai biológico. “E isso é uma média. Eu já dei aula na Cidade de Deus durante dois anos e não é uma questão de classe. Eu mesma tenho pai, ele esteve ali, um pai hiperamoroso, querido, mas que não fazia parte da estrutura da criação”, conta ela na sala do seu escritório no Rio de Janeiro. O lugar, com toda uma parede tomada por livros e cantos decorados com quadros, objetos de valor afetivo e lembranças de viagens, tem jeito de casa. Era ali que ela morava até a filha chegar em sua vida.

O primeiro lampejo de ideia foi o nome da novela. “Essa coisa do Brasil como mátria, esse país que é levado por essas mulheres fodas, que criam três, quatro, cinco filhos, sempre me comoveu. Quando eu mesma virei mãe, isso ganhou um relevo muito forte”, diz Manuela. Como boa “baiana, ariana, intensa”, como ela mesma se descreve, pontua cada frase com amplos gestos dos braços e mãos. Os adjetivos são abundantes em seu vocabulário.

A seguinte reflexão da autora foi sobre como a maternidade é um corte vertical em uma sociedade extremamente estratificada. Não à toa, outra questão central de Amor de Mãe é a desigualdade social. Tanto na ficção quanto na vida, cada mulher resolve seus problemas dentro de suas possibilidades. “Uma mãe rica, se o filho pega uma virose, leva ele para o Copa D’Or [hospital particular de Copacabana]. Em cinco minutos, ele está atendido e fica bom em três dias, porque ele também faz acupuntura, toma homeopatia…”, exemplifica, sem se excluir da problematização: “É muito louco, minha manicure engravidou junto comigo, a filha dela nasceu 20 dias depois da minha, e ela não sabia quem ia fazer o parto dela. Porque, no SUS, você não sabe. Eu não conseguia imaginar a possibilidade de, num momento tão decisivo da minha vida, ter que lidar com uma pessoa que eu nunca tinha visto. Então, os desafios são muito diferentes e essa diferença é muito injusta. Gostaria de mobilizar as pessoas para que nós, privilegiados, tenhamos consciência dos nossos privilégios. Eu crio minha filha falando pra ela: ‘Filha, você é uma pessoa privilegiada. Claro que isso vai te jogar mais longe, vai te abrir mais portas, mas isso não pode fazer você esquecer que o custo desse privilégio é um monte de gente que não tem o mesmo que você’”.

Apesar desse posicionamento, a autora diz que não pretende “atingir ninguém pela cabeça”, e sim pelo coração. Ela conta que, durante o processo de escrita, deparou-se com uma página no Facebook, Eu, empregada doméstica. “Aí eu vi que estamos na Idade Média. Eu li a história de uma mulher que aprendeu a fazer cocô num pote de sorvete, porque a casa só tinha um banheiro e ela não podia usá-lo. São relatos comoventes e não são únicos. Tem pessoas trabalhando só para comer, é escravidão. E não estou falando dos recantos do Brasil, estou falando de São Paulo. Talher separado, copo, comida separada é praxe no Brasil. Tem que lavar o prato da empregada no tanque… Coisas que não fazem sentido nenhum. Essa pessoa mete a mão na sua comida! Por que ela não pode lavar o prato na pia? Ela não pode dividir a bucha?! É uma coisa muito louca”, questiona, agitada.

Manuela conta que adoraria que um personagem seu conseguisse mobilizar algo como a criação de uma lei que obrigue que funcionários possam usar os banheiros das casas em que trabalham —no Brasil, empresas têm obrigação de fornecer isso, espaços domésticos, não. “Essa é uma das minhas pretensões. Como a novela toca nessa questão de classe, eu só estou querendo que a gente se olhe. Isso, para mim, é bem importante: a dramaturgia tem uma função, a de fazer a gente exercitar nosso elástico moral, essa malha imaginária que nos ajuda a reagir”.

Ela também fala das relações raciais. Em Amor de Mãe, a personagem mais rica é interpretada por Taís Araújo. “E existe uma tentação de explicar porque a minha única protagonista negra é a mais rica. Mas eu não vou explicar. Porque o nosso vício pede uma explicação, e eu quero quebrar esse vício. A Érica Januza [outra atriz negra] é uma tenista, e até meus colaboradores sugeriram explicar que ela participou de um projeto de uma ONG, porque tênis é um esporte de rico. Não, gente, vamos naturalizar!”, argumenta.

Culpa e finais felizes

Manuela acredita que, com a mãe, nasce a culpa. “É foda. Eu tenho um suavizante por ser baiana, né? A prateleira da culpa é pouquinho menor na nossa loja e não dá para colocar muita coisa [risos]. Mas a mãe é o elemento mais central e mais desvalorizado, no sentido de que é tão garantido, sabe? Se ela não dorme por dez noites, é porque ‘mãe é mãe’. Aí o pai troca uma fralda e as pessoas se jogam pelo chão: ‘Ai, gente, ele troca fralda!’, imita com voz aguda e animada. Sim, ele troca fralda, é normal. Você, mãe, resolve tudo, não tem uma palma, ninguém levanta uma sobrancelha por isso. Eu tenho muita vontade de fazer uma ode a essa mãe, quero bater palma e falar ‘vocês são demais!’ [diz, enquanto bate palmas]. E eu me incluo nisso, porque eu boto minha filha para dormir todo dia, escrevendo uma novela das nove. Levo pra escola, dou jantar… E esse esforço significa não dormir. Ser mãe é muito isso, seja fazendo novela das nove ou sendo funcionária na casa de alguém”, desabafa.

Ela diz que não quer escrever uma novela de 6.000 páginas para que as pessoas fiquem ricas e casem no final. “Eu acho que o final feliz é a coisa mais subversiva que existe, mas na tragédia grega, no film noir, as pessoas já foram felizes com coisas muito mais profundas do que a alegria. Ou a riqueza ou o casamento. Quero que, no fim, pessoas fiquem felizes na novela com outras coisas, com outras formas de amor, que é outra das coisas mais subversivas que existem atualmente”.

 

Fonte: EL PAÍS

Depressão pós-parto

Nove meses de expectativa não é pouco! Quantos cenários já foram imaginados?

O bebê nascendo, o bebê mamando, o quartinho, as roupinhas, a primeira palavra, o primeiro passo, as fotinhos, enfim, todos os momentos que estão por vir alimentam as expectativas da mãe.

A bolsa rompe, o trabalho de parto começa…Vish! É um stress que só. Mas o bebe acaba nascendo e a emoção é grande: finalmente todos as fantasias maternas vão se realizar.

Só que em 80% dos casos acaba não sendo assim. Por diversas razões.

Durante a gravidez, além das altas expectativas,  também ocorre um pico nos hormônios, principalmente no estrogênio e na progesterona, que se associam ao humor. Assim que a mãe dá a luz, esses níveis despencam e podem causar uma tristeza fisiológica na mulher, chamada de Baby Blues.

Essa tristeza costuma aparecer alguns dias depois do parto e dura no máximo 15 dias. A mulher é tomada por uma sensação de melancolia e desânimo, acompanhados de um certo cansaço e frustração. Mas nada que atrapalhe sua vontade de viver, seus interesses e seus cuidados com o bebê.

Além das questões fisiológicas também tem a questão da privação de sono e da mudança da rotina, que podem dar uma balançada no humor!

Depois de duas semanas, a compensação de hormônios retorna, a mãe se adapta à nova rotina e ao novo ser que a acompanha, e tudo volta ao normal. O problema é quando essa tal tristeza vai aparecendo gradativamente, até que em um mês ou em até seis meses após o parto, ela se torna um fardo na vida da mulher.

Aí já é motivo de preocupação. A mãe sente um desânimo descomunal, que bagunça a sua rotina, rouba seus interesses e a afasta de todos, inclusive do seu filho. Nessa ocasião, o motivo é a depressão pós-parto.

 Segundo revelam as estatísticas americanas, a depressão pós-parto acomete em torno de 10% a 15% das mulheres.

Mulheres que já tiveram depressão em algum momento da vida apresentam grandes chances de ter depressão-pós parto, mesmo que já tiverem tratado. Inclusive, se a depressão ocorreu logo após o nascimento do primeiro filho, a chance de ter novamente após o nascimento do segundo filho é de 50%.

Infelizmente, muitas mães não bola para o que estão sentindo, muito menos as pessoas à sua volta. E isso não deve acontecer. A depressão pós-parto tem a mesma gravidade que uma depressão comum e vai muito além da relação de mãe e filho. Ela afeta todas as esferas da vida da mulher.

Tratamento

São indicados alguns antidepressivos específicos que passam menos para o leite materno e o esquema é discutido com a mulher. Uma das sugestões é desprezar o leite colhido algumas horas depois de tomada a medicação, aquele em que os componentes da droga estão mais concentrados, e oferecer o colhido mais tarde. Isso diminui a exposição da criança ao antidepressivo e permite utilizá-lo durante o aleitamento.

 O tratamento medicamentoso é sempre fundamental. Embora algumas depressões desapareçam espontaneamente, uma porcentagem significativa se cronifica. E tem mais: se não for tratado, o episódio agudo pode deixar um resíduo que se confunde com a distimia, uma forma de depressão mais leve, crônica, que interfere na capacidade de raciocínio e no desempenho funcional. Muitas vezes, essa depressão contínua é considerada um traço da personalidade da mulher e nenhuma providencia efetiva é posta em prática.

Como a depressão em geral tem múltiplos fatores determinantes, isto é, não é provocada só por condições biológicas, mas tem fatores sociais e familiares envolvidos, a psicoterapia individual ajuda a mulher a lidar melhor com o problema e a descobrir que tem um potencial que precisa ser estimulado.

Psicose Puerperal

 Depressão pós-parto e psicose puerperal são quadros muito diferentes. Felizmente, os casos de psicose são raros. A prevalência é de um caso para cada cem mil nascimentos.

O início da psicose puerperal é precoce. Durante a primeira semana depois do parto, a mulher perde o contato com a realidade e começa a acreditar em coisas que não existem, a ouvir vozes, a ter a sensação de incorporações com entidades, delírios e crenças irracionais.

Fonte

Sobre amamentar em público

A Organização Mundial da Saúde afirma que a amamentação é essencial para o bebê durante seus primeiros seis meses de vida.  A UNICEF avaliou 123 países e concluiu que 95% dos bebês do mundo são amamentados. Existem leis em diversos países que protegem as mães que amamentam e proíbem a sua discriminação, mas ainda assim o ato de amamentar ainda constrange as mulheres e incomoda quem está por perto.

É constrangedor

A marca de sutiã Milx realizou uma pesquisa com mil homens e mulheres  e descobriu que uma em cada três pessoas entrevistadas se sentiram constrangidas ou tiveram uma parceira que se sentiu assim ao amamentar em público.

Enquanto nos Estados Unidos, na Noruega, Suécia e na Finlândia o ato de amamentar em público é bem aceito, na França e no País de Gales já não é bem assim. Principalmente porque as próprias mulheres ainda sentem medo do julgamento.

É crime

Há lugares que amamentar em público é considerado ilegal! Na Arábia Saudita é proibido expor os seios em público, mesmo que for para amamentar, pois desrespeita a religião islâmica. Ironicamente, lá as mulheres são incentivadas a amamentar o bebê até os dois anos de idade.

É vulgar

Infelizmente, amamentar ainda é confundido como um ato de vulgaridade, de exposição, e como citado anteriormente, como ato de colocar os seios para fora. Inclusive, muitas mulheres, antes de serem mães, também enxergavam a amamentação em público de forma negativa. Até terem um filho e perceberem que não é uma mera vontade se mostrar e sim uma necessidade de alimentar o seu bebê na hora que ele sente fome.

Outro fator que colabora para o preconceito é a visão que a sociedade ainda tem sobre a mulher como objeto sexual. Os peitos então, nem se fala! Não é a toa que são censurados o tempo todo, ao contrário dos mamilos masculinos.

É ameaçador

A perspectiva conservadora sufoca mais ainda quando as mulheres conquistam liberdades que nunca tiveram, como a de amamentar em público. Uma mera necessidade humana se torna um ato de resistência perante a uma sociedade que sempre privou o feminino de tudo. Ver as mulheres usufruindo de direitos sequer cogitados anos atrás, é considerado uma ameaça, um sinal de que dia após dia, novos espaços serão tomados por elas (por nós).

É íntimo

A divergência entre privado e público também fala alto. As pessoas enxergam a amamentação como um ato privado, como ir ao banheiro, se despir, tomar banho, tira caquinha do nariz.

Desconstrução do preconceito

No fim, é tudo uma mera construção social e o segredo é educar a todos sobre o assunto. Mostrar que é normal, é natural, é humano. As mulheres não estão querendo provocar ninguém ao colocar ao expor os seios por alguns segundos, que é o tempo que o bebê demora para começar a sugar.

Movimentos como a Semana Mundial de Amamentação (WBW), de 1 a 7 de agosto, promovidos pela Aliança Mundial para Ação em Amamentação, que fica na Malásia, estão trabalhando para se opor a essa concepção, com o objetivo de proteger, promover e apoiar a amamentação, tornando-a menos um momento privado e mais uma função biológica e natural que não se limita a um lugar particular.

No ano passado, como parte da WBW, quase 23 mil mulheres em 28 países diferentes participaram do Global Big Latch On, um evento de amamentação simultânea em público fundado na Nova Zelândia em 2005.

A licença de maternidade acabou! E agora?

Todos esses meses, juntinho do bebê 24h por dia, 7 dias por semana! Mas agora chegou a hora de voltar a trabalhar, acompanhada de culpa, medo, ansiedade, preocupação e mais um turbilhão de perguntas: Como vou me separar do bebê? Será que ele vai aguentar ficar longe de mim? E se ele se machucar? E se eu perder algum momento especial?

Por incrível que pareça, a separação temporária entre mãe e filho costuma ser pior para as mães! Além do apego materno, também há todas aquelas comparações com outras famílias e a pressão de ser uma mãe perfeita,100% presente e que dá conta de tudo. No entanto, a realidade mostra que toda essa construção de maternidade é uma mera expectativa.

A ansiedade que toma conta da mãe na hora do doloroso “tchau” influencia a criança, que pode passar mal, ter dores de cabeça, taquicardia e até mesmo se isolar.

Vamos passar algumas dicas de adaptação para tornar esses momentos o menos dolorosos possíveis.

Adaptação do bebê

Com quem deixar o bebê?

Essa é uma decisão pessoal e que deve ser tomada com tempo! Não adianta deixar para decidir na última hora. Durante a gestação, você já pode pesquisar, conversar com outras mulheres, pensar em pessoas de confiança, até mesmo em creches. É essencial que você escolha alguém ou algum lugar que você acredita e confia completamente.

Como preparar a criança?

É interessante ficar um pouco longe da criança antes mesmo da licença acabar. Escolha alguns dias para fazer atividades longe do bebê e o deixe com alguém de confiança ou em uma creche. Assim, tanto você, quanto ele já vão se acostumando com a nova rotina e a mudança não acontece de forma abrupta.

O bebê está chorando, e agora?

Saiba que é normal a criança começar a chorar nos momentos de despedida e está tudo bem. Tente conversar com ela, acalmá-la e passar segurança. Deixe claro que você vai voltar. E o mais importante:

Não saia escondida

Uma hora ou outra, seu filho vai perceber que você desapereceu e vai pensar que foi abandonado. Dê tchau de forma segura e sem chororô. Com o tempo ele vai perceber que você sempre volta e vai se acostumar.

Outros comportamentos que são normais nesse período é a falta de fome e de sono. Qualquer ser humano que passe por mudanças acaba se sentindo mais ansioso e, consequentemente, há um desequilíbrio no funcionamento do corpo, que eventualmente se normalizam. E melhor, preparam o bebê para lidar com a separação de forma mais saudável e madura.

Amamentação

A amamentação também pode continuar tranquilamente. Durante a semana, enquanto você estiver longe do bebê, ordenhe seu leite e entregue-o para quem for cuidar dele.

Mães, respirem fundo

Como lidar com a culpa de “deixar” o bebê com outra pessoa?

Se pergunte:

Eu preciso voltar a trabalhar?

Eu quero voltar a trabalhar?

Tome consciência dos seus sentimentos e vontades, isso vai te ajudar a se sentir menos culpada.

Aceite que no início vai ser sofrido, mas acredite que vai ser bom para ambos a longo prazo.

Com o tempo, você retoma sua rotina e percebe que está tudo bem com o seu filhote.

Também é interessante levar uma fotinho do bebê para o trabalho ou até mesmo ligar para ele de vez em quando. Mas não deixe isso se tornar excessivo.

Por fim, converse com outras mães, pesquise, você não está sozinha! Milhares de mulheres passam por isso e tem muito a compartilhar

Fontes: Macete de Mãe e Gazeta do Povo

Xô, ansiedade!

É importante saber que, em mulheres com menos de 35 anos, o período médio para engravidar é de um ano. Já em mulheres acima dos 35, é de seis meses.

Este período, seguido de sucessivas tentativas, é inundado de ansiedade e estresse. Enquanto o bebê não vem, a angustia de possivelmente nunca tê-lo permanece firme e forte.

Infelizmente, o estado emocional tem muita relação com a fertilidade, e, consequentemente, gera um efeito dominó:

-O estresse diminui a capacidade reprodutiva de ambos os sexos.

-A dificuldade de engravidar gera frustração, ansiedade e depressão.

-A ansiedade pode alterar o ciclo menstrual da mulher, influenciando na ovulação, e assim, na capacidade de conseguir uma gestação.

No entanto, é necessário ter certeza de que o único “problema” é o tempo a geração de angustias que ele causa. O recomendado é realizar exames para eliminar alternativas que envolvam doenças, como a endometriose e inflamações pélvicas.

Quando o assunto é gravidez, não há como generalizar. Cada caso é um caso, e deve sempre ser acompanhado por um médico. É preciso ter em mente que as mulheres não tem a mesma facilidade para engravidar. Umas demoram mais e outras menos, e isso é completamente normal.

Independente de tudo, a calma sempre deve estar presente. Praticar exercícios físicos é um bom começo para aliviar o estresse.

Maternidade no Netflix

Maternidade é uma palavra muito usada, mas pouco entendida. Suposições, não faltam! Até de quem nunca foi mãe.

Maternidade pode ser um dos momentos mais profundos e complexos na vida de uma mulher, e até por isso, acaba sendo um pouco solitário e confuso. Não existem cursos e nem preparações suficientes para se tornar mãe. Assim que o bebê nasce, também nasce uma nova mulher, uma mãe.

Maternidade vai muito além de criar um bebê. É também se redescobrir, se adaptar às mudanças e lidar com um turbilhão de emoções (e choros).

Que tal escutar o que outras mulheres, que já passaram por isso, tem a falar? Cada uma com suas experiências, algumas únicas e muitas similares entre si. Enxergar que você não está sozinha e que não há regras a serem seguidas é o começo para se sentir mais mãe, do seu jeitinho.

Então segue uma lista filmes, séries e documentários no Netflix sobre maternidade.

Amy Schumer Growing

Em um monólogo ao mesmo tempo indecente e sincero, a comediante Amy Schumer fala sobre seu novo casamento, crescimento pessoal, gravidez e os conselhos equivocados de sua mãe. Em frente ao público de uma casa de shows em Chicago, Amy desabafa sobre as alegrias e as dificuldades de ser uma mulher profissional, esposa e mãe no século 21.

Turma do Peito

A série aborda a vida de Audrey, uma jovem mãe que está cansada das noites mal dormidas e das preocupações constantes com seu bebê de apenas dois meses. Determinada a não ter uma vida baseada apenas na maternidade, ela busca apoio em um grupo de suporte para pais. Lá, ela conhece outras mães que também estão passando por dificuldades na criação dos filhos.

Supermães

A série acompanha o dia a dia de Kate, Anne, Jenny e Frankie, quatro mulheres que se conheceram em um grupo de mães superexigentes. Com o fim da licença-maternidade, as amigas precisam encarar a volta ao trabalho. Juntas, elas aprendem a conciliar filhos, carreira e vida amorosa, vivendo na agitada cidade de Toronto.

O começo da Vida

Baseada em avanços da tecnologia e da neurociência, a série faz uma análise aprofundada dos primeiros 1000 dias de um recém-nascido, tempo considerado crucial para o desenvolvimento saudável da criança, tanto na infância quanto na vida adulta. Com filmagens em nove países, incluindo o Brasil, os episódios abordam a importância do cuidado dos pais nos primeiros anos dos filhos.

Perfeita é a Mãe

Amy é uma executiva de sucesso, mas sofre tentando equilibrar seu tempo entre o emprego e a criação dos filhos. Estressada com as tarefas domésticas, ela decide mudar drasticamente sua rotina, lutando contra os padrões impostos pela Associação de Pais e Professores da escola de seus filhos. Para isso, ela conta com a ajuda de Carla e Kiki, outras duas mães que também estão exaustas.

Mãe não é tudo igual

A Revista AzMina publicou em 2016 uma reportagem riquíssima sobre a maternidade em diversas tribos indígenas. Já faz alguns aninhos, mas é muito interessante (e importante) conhecer mais sobre a cultura indígena e perceber o quanto ela tem a agregar. Indígena ou não, mãe não é tudo igual! O espirito materno é puro instinto, não tem lei. Tem escolhas, identificação e respeito. Tanto da mãe, quanto do filho.

Leia mais relatos e veja entrevistas aqui!

Agora, vamos para uma palhinha da reportagem.

Na Tribo Tapayuna, no Mato Grosso, as mães carregam a criança no colo praticamente o dia todo. Elas usam uma espécie de tipóia para sustentar seus filhos (as) e permitir que eles mamem quando tiverem vontade. E assim, elas continuam seus afazeres: fazer artesanato, tirar roupa do varal…Tudo que conseguirem fazer com a criança no peito.

Já as crianças da tribo Kaingang, mamam no peito de mais de uma mãe, e o quanto quiserem. Tem algumas crianças param de mamar com menos de um ano enquanto outras mamam até os 6 anos, conta a antropóloga Joziléia Daniza.

Nesta tribo, o desenvolvimento e a necessidade da criança é respeitado. Mamar em mais de um peito se tornou necessário desde que as mães passaram a trabalhar fora, em fábricas da região. Tudo para manter o bebê alimentado. E o ciúme? Até existe, mas são relações muito distintas.

“Você sabe que é importante para o seu filho que a avó leve ele para tomar banho, que outras mãe deem comida, que ele se relacione com diversos irmãos…Porque isso é um apoio. Uma criança Kaingang não fica sem pai, nem mãe. Ela vai ter pai e mãe, embora seus pais biológicos muitas vezes não estejam com ela”, diz a antropóloga.

A amplitude das relações de parentesco entre muitos grupos indígenas, permite que as crianças recebam atenção e cuidados de diversas pessoas e que desenvolvam autonomia desde pequenas. Em uma casa Kaigang, por exemplo, o núcleo familiar é formado pela “mãe velha”, como se fosse uma matriarca, e uma rede de mulheres: filhas, noras, netas e agregadas.

“Essas mulheres se cuidam e se apoiam. Temos uma relação de parentesco vai além do sangue, é uma relação de afinidade” – complementa Joziléia.

Os Tapayuana, por exemplo, usam a mesma palavra para denominar “pai” e “tio”, como se ambos fossem pai da criança.

Desmame

A autonomia vem mais cedo para as crianças indígenas, independente da idade do desmame. Geralmente, entre um e dois anos, a criança já começa a comer sozinha, ir para o rio com outras crianças, cuidar dos irmãos mais novos e ajudar nas tarefas.

Parto na tribo Dessana

Quando a cólica chega avisando a vinda do bebê, a mulher toma um remédio para aumentar ainda mais a dor e a parteira é chamada. Muitas vezes, os remadores (sempre homens) também  são convocados para “arrumar” a posição do bebê dentro do útero por meio de uma oração. Em um parto na tribo Dessana, sempre haverá a parteira, os rezadores, os pajés, curandeiros e os líderes espirituais.

O homem é o combo da força espiritual e física.

“Especialmente no parto normal, em casa, a gente precisa da força do homem. Porque é ele que vai segurar a gente. Na hora de dar a luz, a gente fica completamente sem força, sem nada. Então precisa do homem pra te segurar, pra manter você alerta ali. E da força do homem. Porque a gente tem o nosso parto sentada. Então o homem tem que ficar segurando a gente firme mesmo” – Gisele Fontes, da Aldeia Dessana.

Jornalismo de peito aberto

O Mamilos é um podcast sobre o mundo contemporâneo, apresentado pelas maravilhosas Cris Bartis e Juliana Wallauer. Elas abordam temas polêmicos (por isso o nome “Mamilos”) relacionados à política, relacionamentos, questões sociais, e principalmente, sobre a mulher. Sempre acompanhadas de convidados experts no assunto referente a cada episódio.

Teve um, em especial, sobre puerpério. Uma das pautas mais pedidas pelas ouvintes nos últimos tempos.

“Puerpério é o nome dado ao período pós-parto, que tem uma duração aproximada de três à dez meses, nos quais a mulher vivencia uma série de adaptações físicas e emocionais. É também nesse período que ela se depara com o confronto entre as expectativas construídas durante a gestação e a realidade trazida pela chegada do bebê.”

É neste momento em que ocorre as transformações mais intensas: o útero que estava 150 vezes maior começa a voltar ao seu tamanho normal, as cólicas são corriqueiras, ainda mais os sangramentos. Sabe o que mais? Também tem incontinência urinária, inchaço na região vaginal, o aumento das mamas e a dor que avisa a chegada do leito. Fora as mudanças além do corpo, relacionadas à cabeça, à carreira, à vida sexual, vida social, e por aí vai. O que tiver que mudar, vai mudar.

Toda essa metamorfose é intensificada pela solidão da mãe. Muitas delas se sentem só, carregando um filho e uma bagagem de mudanças que acontecem fora de seu controle. Por mais que toda grávida saiba que nada será como antes, é sempre uma novidade quando, de fato, tudo passa a ser diferente. Cada mãe tem o seu processo individual, que nunca será vivido por mais ninguém, nem por outras mães.

Este episódio aborda todas essas questões e muito mais: sobre ser mãe solo, sobre ter um companheiro/companheira durante o puerpério, sobre a relação com as avós e a família no geral. Sobre a relação da mãe com ela mesma, como mulher, como um ser humano que continua existindo além da função materna.

Tanto as apresentadoras, quanto as suas convidadas Helen Ramos (criadora do canal Cel Mother) e Juliana Gil (psicóloga trabalhadora do SUS), passaram pelo puerpério e cada uma é convidada a compartilhar suas experiências, que são as mais diversas e ricas.

Mães, vocês não estão sozinhas! A intensidade e as mudanças do puerpério são inevitáveis, mas entender melhor o processo é a chave para levá-lo de forma mais tranquila, mais positiva e ao seu favor.

 

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Contrações no puerpério

As famosas contrações uterinas são responsáveis por diversas funções no corpo da mulher.

Quando uma gravidez se inicia, o útero se expande para que o bebê possa crescer tranquilamente.

O bebê cresceu e está pronto para nascer, e agora?

Agora, o trabalho de parto começa e as contrações uterinas dilatam ainda mais o útero, abrindo passagem para o neném sair. Após o nascimento, elas continuam trabalhando firmes e fortes para expulsar a placenta naturalmente.

Já durante o puerpério, a responsabilidade das contrações é ajudar o útero a voltar para o seu tamanho original. A amamentação é uma coadjuvante importantíssima nesta tarefa, porque ela libera o hormônio ocitocina que é responsável pelas contrações e por estimular a recuperação do útero.

Os vasos sanguíneos também se beneficiam deste processo: a contração sela os vasos e impede que ocorra uma hemorragia.

Todas as mães passam por isso,  mas as mulheres que estão tendo o seu primeiro filho sofrem um pouco menos. As dores são similares à cólicas menstruais e podem durar até uma semana. Se o incômodo permanecer por mais tempo, consulte um ginecologista.

Um romance chamado Maternidade

Ser ou não ser mãe? Parece uma pergunta simples, mas poucas mulheres fazem. Segundo a escritora Sheila Heti, maioria das mulheres tem medo de se fazer essa pergunta. Refletir sobre a resposta traz culpa à elas.

A sociedade cobra um grande “sim, quero ser mãe!”, sem levar em consideração as vontades pessoais das mulheres. Dizer não à maternidade é visto como uma atitude egoísta e exige infinitas justificações. “Mas por que você não quer ter filhos?”

“Ninguém pergunta a alguém que tem filhos por que teve, mas se você não tem, precisa responder por que não teve”, diz a escritora.

O livro “Maternidade”, foi a forma que Sheila encontrou para abrir um espaço de discussão e reflexão interior sobre os dilemas da mulher moderna. A questão principal não é ser ou não ser mãe, e sim ter a autonomia e a coragem de se perguntar isso sem ter medo de aceitar a sua própria resposta. Para responder a si mesma, é necessário se isolar de tudo e escutar a sua voz interior, a sua intuição. É avaliar os seu valores de vida, as suas vontades, sonhos e desejos, é se desprender do que a sociedade exige de você. É dizer para si mesma que você não é culpada.

Este livro surgiu para tirar as mulheres do inconsciente, para retirar a pergunta do campo retórico e torná-la subjetiva e pessoal. O mais interessante de todo esse universo é que tem muitas mulheres que nem a resposta tem.

A escritora, então, faz novas perguntas que devem anteceder a questão de ser ou não ser mãe.

“Por que eu não sei responder esta pergunta?”

“Quais são as forças que me impedem de saber?”

Decidir não mãe ainda é uma atitude muito corajosa e pouco representada. Esta decisão é sempre rebatida com a resposta “você vai se arrepender”.

Arrependimentos são imprevisíveis. Mulheres que decidiram ser mãe também podem se arrepender. Mas Sheila abre novo campo de reflexão: qual o problema de se arrepender?

“Não há como ter 100% certeza de nada, porque há sempre uma perda em qualquer decisão que é tomada.”

E não há como deixar de lado o que é vendido para as mulheres sobre maternidade, que é a sensação de se sentir completa.

No entanto, realidade diz o contrário: 98% das mães não se sentem completas com um filho.

O livro não é contra ter filhos. Ele é contra a pressão em cima das mulheres perante  à decisão de ter filhos. Dar à luz transforma a vida da mãe por completo, do corpo à rotina. Até mesmo as relações, profissionais e pessoais. Então é ela que tem que decidir, é ela que deve refletir se é ter um filho que ela deseja. Ou se a outras vontades mais importantes. Pensar em si mesma não é egoísmo, é revolucionário.

Registrar para advertir: parteiras

Maria dos Prazeres de Souza tem 80 anos e realiza partos desde os 17 anos, assim como sua mãe e sua avó faziam. E ela tem mãos de anjo: já auxiliou mais de 5 mil partos sem nenhuma morte.

É difícil perceber a importância de parteiras quando se mora em uma cidade repleta de hospitais. Mas estas mulheres são rainhas em lugares longe de tudo e de todos. E é por causa delas que as mães dão à luz a um bebê vivo e continuam vivas. No entanto, este ofício está ameaçado pela expansão das casas de saúde. Como forma de se adaptar, muitas delas se tornam enfermeiras e carregam as suas práticas tradicionais consigo.

Alerta através da arte

As antropólogas Júlia Morim e Sumaia Vieira, a psicóloga Dan Gayoso e o fotógrafo Eduardo Queiroga, se juntaram para registrar a vida e o trabalho dessas rainhas, para que suas histórias originadas do sertão chegam no urbano que chamem atenção.

Esta união deu a luz ao livro Cordão, que retrata o cotidiano das parteiras através de fotografias  e relatos pessoais. As mulheres aparecem caminhando por paisagens áridas, abastecendo fogões a lenha, descansando em redes e participando de cerimônias religiosas. O livro abrange muito mais do que “partos”. Ele mergulha de cabeça na vida destas pessoas para contar as suas histórias que carregam tradição.

“Meu objeto não era o nascimento. Queria entender quem são as parteiras e como vivem. Elas têm outras profissões e são donas de casa. Via de regra, não recebem nada por acompanhar os partos, mas se tornam líderes em suas comunidades, desempenhando, muitas vezes, os papéis de juíza, psicóloga e assistente social entre as famílias”, revela o Fotógrafo.

Para estas mulheres, ser parteira é uma missão, é um dom divino que foi lhes dado para salvar vidas. Elas respeitam o tempo de cada mãe, as escutam e decidem em conjunto o momento certo.

“Elas estão à frente de seu tempo, várias já têm mais de 80 anos, e praticam a sororidade desde muito antes de o termo virar moda. Elas superam o cansaço de uma rotina exaustiva e contrariam a opinião dos maridos para ajudar outras mulheres nesse momento de vulnerabilidade”, conta a Antropóloga Julia.

Como o conhecimento das parteiras sempre foi transmitido oralmente, os registros escritos, fotográficos e audiovisuais recolhidos pelos pesquisadores estão sendo utilizados em um pedido oficial ao governo para que reconheça o ofício como patrimônio cultural nacional. Para as parteiras, a proposta é a valorização do trabalho de toda uma vida e, para a sociedade, um lembrete de que o cuidado e a atenção no atendimento às mulheres na hora do parto são valores que não podem ser perdidos com o tempo.

Fonte e fotos: Revista Crescer