Microbioma vaginal e sua influência na saúde da mulher

O corpo humano tem de 10 a 100 trilhões de microorganismos comensais, ou seja, dez vezes mais do que o número de células totais do corpo humano e coletivamente contem 27 vezes mais genes (1). O convívio harmônico desta população com o corpo humano é importante na manutenção da saúde do indivíduo.

Primeiramente é importante reconhecer o significado de dois conceitos diferentes (microbioma e microbiota), por vezes, usados erroneamente como sinônimos. Microbiota corresponde aos microorganismos que coletivamente habitam um determinado ecossistema, enquanto microbioma se refere ao total de todos os genomas daqueles que habitam este ecossistema(2).

Uma das regiões mais intrigantes e estudadas é vagina. A microbiota vaginal está formada por mais de 250 espécies bacterianas, constituindo a principal linha de defesa contra a colonização de patógenos oportunistas e cuja integridade é fundamental para manutenção do equilíbrio do microambiente(3). Esta microbiota já foi demonstrada ser bastante dinâmica e influenciada por diversos fatores. Antes da menarca predomina uma combinação de microbiota cutânea e intestinal. Ao iniciar o menacme, por influência da função ovariana mais ativa, começam a proliferar bactérias que predominam até a menopausa. Normalmente são mais de 120 subtipos diferentes de lactobacilos, que por mecanismos variados (produção de ácidos, peróxido de hidrogênio, bacteriocinas e competição por nutrientes) atuam como protetores(4). Mais recentemente através de um estudo por pirosequenciamento de espécies vaginais em uma amostragem de 400 mulheres, um estudo, demonstrou que há diferenças étnicas e temporais no microbioma vaginal. Os autores sugeriram 5 grupos de comunidades bacterianas vaginais. O grupo I constituído predominantemente pela espécie L. crispatus, o II por L. Gasseri, o III por L. Iners, o V por L. Jensenii e o grupo IV formado por um conglomerado de bactérias predominantemente anaeróbias, tais como Gadnerella vaginalis e Prevotela. (5, 6). Além destas diferenças o microbioma vaginal é muito dinâmico, em especial no menacme e na gestação, variando sua composição conforme genética, práticas sexuais, mudanças hormonais, dieta e outros fatores(3).

Durante a vida intra-uterina se estabelece o primeiro contato entre os componentes que formarão a microbiota e a hospedeira, iniciando a modulação do sistema imune. Estudos de metagenômica têm demonstrado presença de numerosas bactérias no liquido amniótico e placenta sem aparente reação inflamatória (7, 8). Após o nascimento, todos os fatores genéticos, imunológicos e ambientais influenciam a microbiota a ser estabelecida nas demais fases da vida da mulher. As diferenças do microbioma se traduzem na possibilidade de determinadas mulheres terem maior predisposição para o desequilíbrio (disbiose) e mais risco de infecção sexualmente transmissível(9).

A associação entre a composição bacteriana vaginal e a doença inflamatória pélvica (DIP) já foi evidenciada. O escore de Nugent maior que 7 e cultura positiva para bactérias associadas a vaginose bacteriana estão associados a duas vezes maior risco para DIP (9). Esta mesma disbiose está associado a mais risco para infecção por Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae, Trichomonas vaginalis, Papilomavírus humano e Herpes simplex vírus (10). Estudos tem ainda demonstrado a associação entre a vaginose bacterina e o risco de infecção pelo vírus da imunodeficiência adquirida (11).

A composição e a disbiose do microbioma do trato genital pode impactar os resultados da gestação, como abortamento, trabalho de parto prematuro e endometrite pós-parto (12). É evidente que a disbiose vaginal está associada a infertilidade e complicações na gestação (13).

Novas descobertas põem em cheque dogmas até então considerados, como aquele que definia ser o trato reprodutivo acima do orifício interno do colo uterino estéril. Recentemente foi demonstrado que bactérias podem estar presentes no compartimento materno-fetal em mulheres saudáveis . Os estudos de análise genética revelaram que estas bactérias lembram aquelas da cavidade oral e não do trato genital inferior, sugerindo que em gestações normais a placenta é colonizada primariamente por via hematogênica (8).

Embora seja evidente os limites da morfologia na determinação dos desequilíbrios da microbiota vaginal (disbiose), ainda na prática diária são estas as armas a serem utilizadas na maioria das vezes para diagnóstico de vaginoses. Em especial o escore de Nugent (14) através da bacterioscopia por Gram. Mas, todo o dinamismo aqui discutido pode ser observado através desta avaliação assim, como suas correlações. Enquanto os estudos de pirosequenciamento e de biologia molecular se resumem a pesquisas, a morfologia ainda é a nossa realidade. No entanto, é imperioso reconhecer que a disbiose tem forte influência e está associada a determinadas condições que põem em risco a saúde da mulher.

Autor:

José Eleutério Jr.

Referências :
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Fonte: Febrasgo