Estilo de vida, fatores modificáveis, obesidade e saúde psíquica: um olhar sobre a saúde das mulheres através da gravidez, parto e puerpério

No final de 2015 a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) que dão continuidade, de maneira mais ampla e abrangente, às metas do milênio que vigoraram até 2015.

Os ODS têm como objetivo geral “boa saúde, bem-estar, possibilidade de desenvolvimento sustentável para todos” e inclui dezessete itens, entre os quais: assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar (item 3); assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade (item 4); alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas (item 5) e redução das desigualdades (item 10). Tais metas se relacionam, de forma mais ou menos direta, com a saúde da mulher.

O conceito de saúde pode ser entendido de uma maneira simplista como a “não-doença” ou então, num sentido mais amplo, englobando cinco itens: nutrição, atividade física, controle do estresse, qualidade de relacionamentos e comportamento preventivo, além da ausência de doenças. Isso leva os profissionais de saúde a terem que repensar suas funções, principalmente o médico que deverá compreender que seu trabalho consiste não apenas em tratar as doenças, mas também, de maneira preventiva, promover saúde para a população com que trabalha.

A gestação é uma janela de oportunidades para as ações de promoção de saúde, pois as mulheres estão muito próximas aos serviços e profissionais de saúde. Além da quantidade de consultas e atendimentos, estão sensibilizadas e dispostas a colocar em prática o que se sabe sobre promoção de saúde, mas não se pratica. Os profissionais de saúde, por sua vez, precisam estar atentos a isso e aproveitar essa oportunidade e trabalhar das mais diversas formas para que esse momento seja um ponto de partida para aquisição de hábitos de vida saudáveis durante a gestação e que idealmente se perpetuem após o parto.

Fisiologicamente a gravidez e o aumento do peso estão interligados em um padrão complexo, que inclui vários fatores associados ao de estilo de vida como o comportamento alimentar, atividade física, cessação do tabagismo e controle do estresse. Esses fatores podem ser abordados durante a gestação para que melhores resultados maternos, neonatais e em longo prazo para a vida da mulher sejam obtidos.

Isso torna-se relevante ao considerarmos que a obesidade é um dos principais problemas de Saúde Pública da atualidade, e nessa epidemia mundial, o número de mulheres em idade reprodutiva com obesidade também é crescente. Segundo estimativas da OMS, 1,9 bilhões de adultos apresentam sobrepeso e aproximadamente 600 milhões são obesos. No Brasil, a prevalência de sobrepeso e obesidade entre adultos era 52,5% e 58,4% no ano de 2013, entre homens e mulheres respectivamente. Além disso, a ocorrência de sobrepeso e obesidade é maior entre indivíduos jovens, crianças e mulheres em idade reprodutiva. A gestação está incluída na lista dos fatores clássicos desencadeantes da obesidade.

A obesidade materna e o ganho de peso excessivo na gestação estão associados ao aumento de complicações antenatais, intraparto, pós-parto e complicações neonatais. Uma revisão sistemática recente reforça a importância de mudanças no estilo de vida e de como exercícios e dieta interferem na adequação do ganho de peso gestacional e redução do diabetes gestacional, hipertensão e parto por cesariana.

Além disso existe correlação entre o risco de desenvolvimento de doenças na vida adulta e o ambiente ao qual o indivíduo foi exposto no meio intrauterino. Respostas do indivíduo ao ambiente após o nascimento podem ser moduladas por adaptações ainda no útero, de modo que a deficiência ou o excesso de nutrientes maternos programam uma suscetibilidade de desenvolvimento de doenças metabólicas mais tardiamente. Estudos experimentais demonstram que o ambiente intrauterino possui papel central no risco de obesidade e na programação genética e metabólica da prole.

A crescente tendência do início precoce da puberdade se associa a fatores genéticos e não genéticos (ambientais, estado nutricional, sedentarismo e condições sócio-econômicas). Meninas que apresentam menarca precoce são propensas a desenvolver sobrepeso na vida adulta, e ainda gestação precoce.

O ganho de peso excessivo na gestação traz o risco da retenção de peso pós-gestacional, que por sua vez aumenta o risco para desenvolvimento de comorbidades tanto em gestações futuras como no decorrer da vida da mulher.

Ainda que a obesidade seja determinada pelos aspectos biológicos, sua associação a fatores psicológicos é relevante para o manejo clínico de indivíduos obesos. Dentro das teorias psicodinâmica, a obesidade pode ser vista como a expressão de uma determinada estrutura psíquica, envolvendo uma complexa trama de dificuldades emocionais e de interação com o meio, vivenciadas em fases precoces do desenvolvimento humano e o apoio psicológico é uma ação importante nos cuidados com mulheres com ganho de peso excessivo ou obesidade, ajudando a prevenir a obesidade materna em longo prazo.

Um estudo sobre gravidez e o ganho de peso indicou que a retenção de peso pós-parto foi mais afetada por mudanças de estilo de vida durante e após a gravidez do que por fatores pré-gestacionais. Ou seja, a intervenção comportamental durante a gravidez pode reduzir a retenção de peso pós-parto e melhorar a alimentação e autocuidado.

Existem lacunas na literatura sobre o assunto e apesar do conhecimento, pouco se modificam os hábitos de vida e consequentemente os resultados relacionados. A elaboração de medidas ampliadas no acompanhamento das mulheres durante a gestação e puerpério pode ser uma oportunidade de proporcionar o desenvolvimento de um estilo de vida saudável que pode, em longo prazo, se associar à melhor condição de saúde da população feminina.

Fernanda Garanhani de Castro Surita, Professora Livre-docente do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP.

Fonte: Febrasgo