5 perguntas sobre amamentação respondidas por duas especialistas

Entre 1º e 7 de agosto, comemora-se a Semana Mundial de Aleitamento Materno, que chega à sua 25a edição em 2017. Nas últimas décadas, a promoção do aleitamento se tornou uma preocupação crescente na área da saúde pública, mudando um paradigma que vinha desestimulando a amamentação em prol do leite industrializado.

A Organização Mundial de Saúde recomenda o aleitamento materno exclusivo para os bebês até os 6 meses de idade. E a amamentação continuada até os 2 anos de vida do bebê.

A prática do aleitamento traz benefícios, inclusive a longo prazo, para a saúde da mãe e do bebê, para o desenvolvimento cognitivo da criança e até para a economia, reduzindo custos no tratamento de doenças como pneumonia, diarreia e asma e aumentando escolaridade e renda da população, segundo uma série de artigos de um grupo reconhecido de pesquisadores de várias partes do mundo, entre eles o brasileiro Cesar Gomes Victora, publicados na revista científica The Lancet.

Amamentar é difícil e requer diferentes tipos de apoio à mulher: a garantia do direito à licença-maternidade é uma delas. Também contam o acesso à informação, o direito de escolha e o apoio familiar.

O Nexo conversou com a nutricionista e pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da USP Viviane Vieira, e com Claudia Medeiros, psicóloga, professora e pesquisadora do Curso de Obstetrícia e do Programa de Pós-Graduação em Mudança Social e Participação Política da mesma universidade para responder a cinco questões sobre a importância da amamentação para a saúde, quais são os fatores que impedem mulheres de amamentar por um período mais longo e sobre a autonomia da mãe para decidir amamentar ou não por mais tempo:

Entre os benefícios da amamentação para mães e filhos (a curto e longo prazo), quais você destaca como centrais para a promoção da prática?

Viviane Vieira   Diminuição do risco de mortalidade infantil: o risco de mortalidade é menor entre crianças amamentadas pela diminuição da incidência de diarreia, doenças respiratórias, entre outras; formação de microbiota intestinal adequada: a presença de determinadas bactérias intestinais relacionadas à diminuição do risco de obesidade, melhor imunidade e menos processos alérgicos; crianças com melhor desenvolvimento cognitivo; prevenção de doenças na mulher, como câncer; fortalecimento do vínculo mãe-filho.

Qual é a recomendação padrão hoje dos profissionais de saúde com relação à amamentação?

Viviane Vieira Recomenda-se amamentação exclusiva (sem qualquer outro alimento ou líquido, mesmo água) até o 6o mês. É recomendado  que o aleitamento materno seja mantido até, pelo menos, os dois anos da criança.

Há um movimento de revalorização do aleitamento no Brasil? Se sim, como e por que isso surgiu?

Claudia Medeiros Estudos sobre a história do aleitamento materno indicam que foi na década de 1970 que a OMS [Organização Mundial da Saúde] e Unicef [Fundo das Nações Unidas para A Infância] buscaram mobilizar os atores do campo da saúde e sociedade em geral para o incentivo à amamentação. Um evento que marcou o período foi a publicação de um livro que denunciava o impacto da indústria de alimentos, fabricantes do leite em pó, na vida de crianças de países pobres, com resultados devastadores, especialmente para os bebês. O autor do livro “Baby Killer” (o inglês Mike Muller) mostrava como a ação da indústria alimentícia contribuía para o adoecimento e morte de muitos bebês.

O debate sobre o tema deu visibilidade à influência da indústria de alimentos no desmame precoce, conhecido como desmame comerciogênico. A discussão chegou ao Brasil e assumiu contornos próprios, envolvendo atores do campo da saúde, defensores dos direitos da criança e organizações da sociedade civil. Vale lembrar que a mortalidade infantil era bem alta no Brasil da década de 1970, com muitas mortes associadas à desnutrição e diarreia. Em 1979 ocorreram eventos importantes sobre o tema, promovidos pelo Ministério da Saúde em associação com outras instituições, criando assim as condições para que, em 1981, fosse criado o Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno. A ação governamental tinha como foco a redução da mortalidade infantil.

Então, foi na década de 1980 que assistimos no Brasil uma grande mobilização pelo aleitamento materno. Estudiosos, gestores, profissionais de saúde e ativistas buscaram dar visibilidade aos estudos sobre a superioridade do leite materno em relação às fórmulas lácteas, sobre os benefícios físicos e emocionais para a saúde dos bebês e das mulheres. A Semana Mundial da Amamentação foi lançada em 1992.

Viviane Vieira Desde o final do século passado, políticas públicas pró-amamentação surgiram, como a Iniciativa Hospital Amigo da Criança. O aumento da licença-maternidade também foi um incentivo, apesar de ainda ser insuficiente. A regulamentação da NBCAL [Norma Brasileira para Comercialização de Alimentos para Lactantes e Crianças de Primeira Infância], que proíbe propagandas de fórmulas, bicos e chupetas, também foi uma grande conquista para a defesa da amamentação.

Quais são os principais obstáculos enfrentados hoje pelas mães para amamentar por mais tempo? As políticas de incentivo ao aleitamento levam em conta essas dificuldades?

Claudia Medeiros A promoção e incentivo do aleitamento materno ocorre por meio de várias ações. As mulheres que realizam pré-natal no SUS devem receber orientação nas consultas. Há uma Caderneta da Gestante que é distribuída nas Unidades Básicas de Saúde e contém informações sobre aleitamento materno e direitos das mulheres no pós-parto. Também nas maternidades, as mulheres recebem orientação sobre amamentação. As mulheres que amamentam têm direito à dispensa de uma hora por dia ou dois períodos de meia hora para amamentar o bebê, até que ele complete seis meses de vida. Mas, é claro que os bebês não mamam apenas duas vezes por dia, então são orientadas para que um pouco antes da volta ao trabalho comecem a retirar o leite para deixar congelado e ter quantidade suficiente para que possa ser oferecido ao bebê. Depois, é recomendado que retirem diariamente o leite e deixar para o bebê.

Mas é claro que existem dificuldades de várias ordens. Por exemplo, a dispensa de uma hora para amamentar é melhor que nada, mas é insuficiente. Para orientar uma mulher trabalhadora a armazenar o leite (retirar o próprio leite e congelar ou manter o leite refrigerado), é preciso saber se ela tem geladeira em casa, se consegue pagar as contas de luz, se tem alguém para cuidar do bebê capaz de descongelar o leite corretamente.

Para manter o aleitamento exclusivo até os seis meses a mulher tem que estar disponível para alimentar o bebê em todos os lugares e em uma sociedade onde as mamas são sexualmente valorizadas, é difícil para algumas mulheres amamentar em público. Para outras, o difícil é lidar com uma sociedade que aceita a exibição das mamas das mulheres no Carnaval e é hostil quando vê mulheres amamentando em público.

Viviane Vieira São cinco pontos: condições inadequadas de trabalho materno (mulheres que precisam voltar precocemente ao trabalho ou com condições desfavoráveis — como sem local de ordenha — amamentam menos), orientação inadequada de profissionais da saúde (infelizmente, muitos profissionais acabam desestimulando a amamentação), falta de apoio familiar (mulheres sobrecarregadas e sem apoio também tendem a amamentar menos), mídia abusiva (mesmo existindo regulamentação, a influência da indústria ainda interfere bastante e de forma negativa no aleitamento materno), creches que não apoiam amamentação (isso ainda é bastante comum, pressionando mulheres a desmamar).

É possível equilibrar a necessidade de ampliar a duração do aleitamento e a autonomia das mulheres para decidir sobre o próprio corpo?

Claudia Medeiros Quanto à discussão sobre ampliação da amamentação, até os dois anos ou mais, e mesmo sobre a amamentação nos primeiros seis meses de vida, considero que não podemos nos esquecer de que quem amamenta é a mulher e ela que deve decidir se vai amamentar e por quanto tempo.

Para que possa fazer uma escolha informada é preciso ter acesso à informação, saber sobre os benefícios da amamentação para a própria saúde e para a saúde do bebê. Estamos falando de autonomia. É uma discussão em que alguns podem questionar sobre o direito da criança à amamentação, mas como quem produz o leite é a mulher, é ela quem deve decidir o que fará com o próprio corpo.

Fonte: Nexo